Principais índices de Wall Street encerram o pregão em queda, pressionados por dados de inflação, tensões geopolíticas e desempenho negativo do setor de tecnologia.

Sexta-feira chegou rápido — talvez rápido demais. Em um piscar de olhos, a semana acabou e fevereiro também ficou para trás. O segundo mês de 2026 entrou para a história com a sensação de que o ano mal começou: Réveillon parece recente, o Carnaval já passou, o verão se aproxima do fim e, no horizonte, surgem Copa do Mundo, inverno, eleições e, antes que se perceba, mais um encerramento de ano.
Nesse ritmo acelerado, pode ter passado despercebido que, com a queda de 1,16% no pregão desta sexta-feira, aos 188.786,98 pontos — um recuo de 2.218,04 pontos —, o Ibovespa encerrou a semana com baixa de 0,92%. Foi a primeira semana negativa do ano, após uma sequência de resultados positivos.
Ainda assim, o desempenho não comprometeu o saldo mensal. Fevereiro fechou com alta de 4,09%, abaixo do avanço expressivo de 12,56% registrado em janeiro. O último mês de resultado negativo do índice havia sido julho de 2025, quando acumulou perda de 4,17%.
No mercado de câmbio, o real voltou a se desvalorizar após a alta da véspera, que havia interrompido uma sequência de cinco quedas consecutivas. A moeda recuou 0,10%, cotada a R$ 5,134, enquanto analistas já discutem quando o dólar pode voltar ao patamar de R$ 5,00. Os juros futuros seguiram movimento oposto: depois de sessões consecutivas de queda, avançaram nesta sexta-feira.
IPCA-15 acelera
O dia já não se desenhava favorável. Apesar do verão, a capital paulista registrou temperaturas mais baixas. Como clima e calendário não ditam preços, o foco se voltou ao que realmente pesou nos mercados: o IPCA-15 de fevereiro.
A prévia da inflação avançou acima das expectativas e chamou atenção logo nos destaques. O índice subiu 0,84%, configurando a maior surpresa para o mês em mais de 20 anos e reforçando as preocupações com o ritmo dos preços.
Na avaliação da XP Investimentos, a leitura do indicador trouxe um resultado desfavorável nos componentes de serviços — segmento que vinha pressionando a inflação ao longo de 2025. Ainda assim, no dado consolidado, houve desaceleração, o que evidencia a eficácia do aperto da política monetária. No acumulado de 12 meses, a taxa recuou de 4,50% até janeiro para 4,10% no período encerrado em fevereiro, com influência relevante de fatores sazonais.
Apesar do impacto inicial da manchete, a XP avalia que as expectativas inflacionárias perderam força e que a trajetória de desinflação nos preços de bens industrializados e alimentos segue preservada. Diante desse cenário, a casa mantém a projeção de corte de 50 pontos-base na taxa Selic na reunião de março do Comitê de Política Monetária, levando o juro básico para 14,50%.
Bolsas globais em baixa
O ambiente externo também contribuiu para o tom negativo desta sexta-feira. Em Nova York, os principais índices encerraram o pregão com quedas expressivas.
Pesou o fato de o índice de preços ao produtor (PPI) de janeiro ter vindo acima do esperado. As tensões envolvendo os Estados Unidos e o Irã também influenciaram, assim como a persistente volatilidade no setor de tecnologia.
No noticiário corporativo, as ações da Dell avançaram após projeções bilionárias ligadas a servidores voltados à inteligência artificial, enquanto a OpenAI alcançou uma avaliação recorde. Em contraste, uma parceira da Nvidia ampliou prejuízos e despesas, apesar do crescimento da receita, o que levou a forte queda de suas ações.
Outros mercados também refletiram o ambiente de aversão ao risco: o petróleo subiu mais de 2%, enquanto o Bitcoin aprofundou as perdas, registrando o quinto mês consecutivo de queda. Na Europa, as principais bolsas fecharam no vermelho. Diante de tantos eventos, fica até difícil acreditar que o calendário ainda marque fevereiro — a sensação é de que dois meses já concentraram décadas de acontecimentos.
Acordo Mercosul–UE
No Brasil, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o Senado deve aprovar o acordo entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia em “uma ou duas semanas”. A sinalização ocorre em meio à decisão do bloco europeu de acelerar o entendimento comercial, apesar da resistência da França, que classificou a celeridade como uma “má surpresa”.
Balanços do 4T25
A temporada de resultados do quarto trimestre de 2025 caminha para o encerramento — ainda que parte das divulgações avance por março. Nesta sexta-feira, investidores acompanharam mais uma rodada de números relevantes.
Entre os destaques, a B3 (B3SA3) reportou crescimento superior a 20% no lucro líquido. Mesmo assim, a ação encerrou o pregão em queda de 0,28%, após oscilar no campo positivo durante boa parte do dia.
Já a Axia Energia (AXIA3) registrou lucro líquido de R$ 13,7 bilhões no trimestre, um avanço de 12,45 vezes em relação aos R$ 1,11 bilhão apurados um ano antes. Ainda assim, os papéis recuaram 2,62%. O Goldman Sachs destacou que o desempenho foi impactado por itens não recorrentes. A companhia informou, ainda, planos de acelerar os investimentos em 2026 e 2027.
A Localiza (RENT3) também apresentou crescimento no lucro trimestral, movimento que foi acompanhado pelo desempenho dos papéis, que avançaram 0,61% no pregão. Analistas reiteraram a confiança na tese de investimento da companhia.
Em sentido oposto, a M. Dias Branco (MDIA3) registrou queda expressiva de 10,55%, após divulgar resultados considerados fracos no quarto trimestre de 2025. A Qualicorp (QUAL3) também teve desempenho negativo, com recuo de 12,24%, depois de reverter lucro e reportar prejuízo no período.
As blue chips exerceram forte pressão sobre o Ibovespa. A Vale (VALE3) caiu 0,83%, enquanto a Petrobras (PETR4) ignorou a alta do petróleo e recuou 0,71%, encerrando o dia na mínima. Entre os bancos, as perdas foram generalizadas, com exceção do Bradesco (BBDC4), que avançou 0,81%.
Março começa com uma agenda carregada de indicadores. No Brasil, os investidores acompanham a divulgação do PIB do quarto trimestre de 2025, na terça-feira, os dados de produção industrial, na quinta, além de números do mercado de trabalho ao longo da semana. No ritmo acelerado do calendário, quando se perceber, o ovo de Páscoa já terá acabado e o debate estará em torno da Seleção sob o comando de Carlo Ancelotti. Afinal, que mês é hoje mesmo?
(Fernando Augusto Lopes)
