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Grandes montadoras chinesas expandem presença no Brasil com a ambição de conquistar o mercado latino-americano.

Great Wall, BYD e Chery ampliam a produção de veículos elétricos no Brasil — em alguns casos, utilizando instalações que pertenciam a montadoras tradicionais.

A cerca de duas horas de carro de São Paulo, superando os congestionamentos e cruzando extensas plantações de cana-de-açúcar, uma das primeiras fábricas de veículos elétricos a bateria das Américas está prestes a ser inaugurada.

A proposta é transformar a forma de condução no Brasil e, eventualmente, em toda a América Latina — um movimento semelhante ao que as montadoras chinesas já concretizaram em boa parte da Ásia e almejam replicar na Europa.

Até pouco tempo, a planta era operada pela Mercedes-Benz, tradicional fabricante alemã de veículos a combustão. Atualmente, o espaço pertence à Great Wall Motor, uma das maiores exportadoras da China no segmento de carros elétricos modernos e acessíveis.

A mudança de controle sobre a fábrica simboliza uma transformação profunda em uma das indústrias mais estratégicas do mundo. Se no passado os veículos movidos a combustíveis fósseis, produzidos por montadoras americanas e europeias, ditavam tendências e preferências globais, esse cenário tem se alterado rapidamente em favor da China.

Atualmente, o país lidera não apenas na produção e exportação de veículos em geral, mas também domina o setor de carros elétricos, consolidando-se como referência no desenvolvimento tecnológico e no controle da cadeia de suprimentos desses modelos.

Os veículos elétricos chineses estão entre os mais avançados do mercado. Alguns oferecem autonomia comparável à dos modelos premium da Tesla, porém com preços mais acessíveis. A BYD (Build Your Dreams), por exemplo, já desenvolveu tecnologia capaz de recarregar uma bateria completamente em apenas cinco minutos.

Não surpreende que as vendas da Tesla na China estejam em declínio, enquanto os Estados Unidos, sob as administrações de Joe Biden e Donald Trump, adotaram medidas que praticamente bloquearam a importação de veículos chineses.

Diante desse cenário, a China volta seu foco para os demais mercados globais.

Montadoras chinesas de veículos elétricos e híbridos já estabeleceram — ou estão em processo de instalação — fábricas em países como Hungria, Indonésia, Rússia, Tailândia e Turquia. Esses investimentos, incluindo a planta da Great Wall no Brasil, integram uma estratégia abrangente da China para garantir uma participação expressiva na indústria automotiva mundial — setor de grande relevância econômica, gerador de empregos e fonte de prestígio internacional.

As gigantes ocidentais do setor automotivo observam com preocupação o avanço chinês.

“Estamos em uma competição global com a China”, afirmou Jim Farley, CEO da Ford Motor, durante a conferência Aspen Ideas em junho. “Não se trata apenas de veículos elétricos. Se perdermos essa disputa, o futuro da Ford estará comprometido.”

A Great Wall Motor assumiu as instalações da antiga fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior de São Paulo, após o encerramento das operações da montadora alemã em 2021, motivado pela queda nas vendas de veículos de luxo. Já a BYD ocupou uma unidade fabril da Ford, que deixou de produzir no Brasil após anos de baixa performance em vendas e prejuízos acumulados, encerrando assim sua longa trajetória industrial no país.

Na ocasião, Jim Farley classificou os fechamentos como “decisões difíceis, porém necessárias”. A Ford havia iniciado a produção de veículos no Brasil há cem anos, com o icônico Modelo T.

“Pela primeira vez em décadas, estamos diante de um desafio concreto à hegemonia das montadoras americanas e europeias — não apenas em participação de mercado, mas também na liderança sobre o futuro da mobilidade”, avaliou Natalie Unterstell, presidente do Talanoa Institute, entidade de pesquisa e advocacy climática com sede no Rio de Janeiro.

O Brasil, atualmente o sexto maior mercado automotivo do planeta, busca transformar esse cenário em oportunidade. O país tem incentivado a instalação de fábricas em território nacional, independentemente da origem das empresas, com foco na produção de veículos menos poluentes — ao mesmo tempo em que aplica tarifas progressivas sobre importações, visando proteger e estimular a indústria local.

Nem tudo tem sido simples nesse processo. Conflitos trabalhistas surgiram, especialmente relacionados a diferenças nas práticas sindicais adotadas por empresas chinesas. Ainda assim, a posição do governo brasileiro permanece firme: quem quiser acessar o mercado consumidor local deve investir em produção e geração de empregos no país.

“Não queremos nos limitar ao papel de importadores de tecnologias desenvolvidas no exterior”, afirmou Rafael Dubeux, assessor especial do Ministério da Fazenda, em entrevista concedida em Brasília. “Nosso objetivo é aproveitar essa transformação global no setor industrial para garantir que o Brasil faça parte das cadeias de valor que tendem a se consolidar.”

Atualmente, ao menos três montadoras chinesas estão implantando fábricas de montagem em território brasileiro. Além da Great Wall Motor e da BYD, a Chery firmou parceria com o grupo brasileiro Caoa para fabricar veículos no centro do estado de Goiás.

Apesar do avanço das montadoras chinesas no Brasil, Márcio Lima Leite, presidente da associação brasileira de montadoras (Anfavea), manifesta preocupação. Ele aponta que as novas fábricas instaladas no país continuam fortemente dependentes de componentes importados da China — especialmente das baterias, que representam a parte mais valiosa dos veículos —, o que limita os efeitos positivos sobre a indústria nacional.

“É essencial desenvolver competitividade local, com a produção dessa nova tecnologia em território brasileiro”, afirmou.

Diante das demandas do mercado, as empresas chinesas também precisaram adaptar seus modelos à realidade brasileira. Uma das exigências é compatibilidade com o etanol, combustível amplamente utilizado no país e derivado da cana-de-açúcar. A legislação obriga que a gasolina contenha mais de 25% de etanol em sua composição.

Por isso, além dos modelos 100% elétricos, as fabricantes também estão investindo em veículos híbridos, que operam tanto com etanol quanto com eletricidade. “Precisamos oferecer ao consumidor o que ele busca: tecnologia avançada com preço acessível”, disse Márcio Renato Alfonso, diretor de P&D da Great Wall no Brasil.

Instalação da BYD em Camaçari

Na cidade industrial de Camaçari, na Bahia, a antiga planta da Ford está sendo transformada em uma nova unidade da montadora chinesa BYD, localizada na Avenida Henry Ford. A fábrica foi, por muitos anos, uma das mais modernas da Ford na América Latina, com cerca de 5 mil funcionários e produção diária de veículos a gasolina. Contudo, as operações encerraram-se em 2021, após anos de prejuízos acumulados.

“Foi um baque”, afirmou Júlio Bonfim, ex-presidente do sindicato dos metalúrgicos da planta. “Esperava que meu filho também trabalhasse ali, mas isso não se concretizou.”

Com um pacote de incentivos do governo da Bahia, a BYD assumiu o controle da instalação. Porém, logo após o início das obras, a empresa enfrentou uma grave crise: em dezembro, autoridades brasileiras identificaram 163 trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão. Eles eram contratados pela empreiteira Jinjiang Construction Group, responsável pela obra.

Os trabalhadores foram repatriados, e a construção desacelerou. Representantes da empresa afirmaram que a produção deve começar ainda em 2025. O sindicato local exige que os empregos sejam preenchidos por brasileiros e ameaça greve caso trabalhadores estrangeiros sejam contratados para a linha de produção.

O presidente da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, declarou que a empresa adotou medidas para corrigir as irregularidades. Em maio, o Ministério Público do Trabalho apresentou denúncia contra a BYD e suas contratadas por tráfico de pessoas. A empresa informou que pretende apresentar defesa.

Enquanto isso, a fábrica da Great Wall em Iracemápolis (SP) deve entrar em operação plena em breve. A cerimônia de inauguração está prevista para agosto, com a produção inicial de um modelo híbrido e três híbridos plug-in.

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